Fabricante de pás eólicas diz já ter adesão de mais de 42% dos credores abrangidos pelo plano
A fabricante de pás eólicas Aeris Energy recorreu a um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar seus passivos. A medida abrange dívidas de R$ 1,5 bilhão e, apesar do aval do conselho de administração, ainda precisa ser ratificada em assembleia junto a acionistas em data a ser marcada.
Em fato relevante, a companhia disse que a iniciativa atinge seus principais credores e “negociações empreendidas com o intuito de viabilizar a readequação da estrutura de capital e a redução de alavancagem, bem como a continuidade da fabricação de pás para aerogeradores, com a manutenção dos empregos, da arrecadação de tributos e das relações comerciais vinculadas à atividade”.
No mesmo documento, a Aeris informou que o plano já conta com adesão de credores titulares de 42,18% dos créditos abrangidos, percentual superior a um terço, que é o montante exigido pela legislação. A companhia se comprometeu, porém, a subir a adesão para mais da metade, quórum necessário à homologação do plano, em 90 dias.
O pedido foi protocolado junto à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central da Comarca de São Paulo (SP), apesar de a sede e a fábrica da companhia estarem no Ceará. Na solicitação, à qual o Valor teve acesso, o escritório que representa a companhia considera a filial administrativa paulistana como principal estabelecimento da empresa.
A fabricante afirmou, ainda por meio de advogados, “enfrentar cenário de crise econômico financeira, por uma associação de fatores, circunstâncias e elementos adversos” que passam pelo “crescimento acelerado” iniciado em 2019, por conta do bom momento do setor eólico, seguido pela pandemia de covid-19 e seus efeitos, a emissão bilionária de debêntures em 2021, variações nos preços de energia no mercado livre em 2022 e cortes de geração renovável (conhecidos pelo jargão “curtailment”) que se agravaram a partir de 2023, além do cenário macroeconômico.
Neste contexto, diz o pedido, a empresa adotou medidas como o reperfilamento de cerca de 90% de seu endividamento financeiro, concluído em maio de 2025, além de iniciativas na frente operacional. Ainda assim, nos últimos dois anos, a retração da demanda e o que a empresa chama de “interferências regulatórias sobre o preço da energia renovável frustraram as premissas de faturamento que embasaram o cronograma financeiro pactuado”. Dessa forma, a geração de caixa atual não é suficiente para arcar, “pontualmente, com o custo dos financiamentos e demais obrigações”, alega a empresa.
A decisão não é de todo inesperada. A empresa já havia obtido na Justiça, em agosto, uma proteção por 60 dias contra execução de dívidas também no âmbito da negociação com credores. Para o especialista Renato Scardoa, sócio do Scardoa Del Sole Advogados, essa escalada paulatina costuma ser um caminho adotado para evitar um risco reputacional. Ele explicou que a recuperação extrajudicial atinge um conjunto maior de credores do que uma negociação mais individualizada, como a companhia já havia feito, mas ainda é menos abrangente do que uma recuperação judicial, que “demanda uma fiscalização e um custo maior, além de ser mais burocrática”.
Procurada, a Aeris não comentou. A Vestas, principal cliente da Aeris e com quem a companhia havia anunciado negociações para fornecer pás para um novo projeto eólico no Piauí no fim do ano passado, também não comentou. No fato relevante, a fabricante de pás disse que estavam “preservadas as linhas de fornecimento necessárias às suas operações, que seguirão sendo conduzidas normalmente”.
A Aeris informou ainda que o plano não abrange créditos tributários ou trabalhistas.
Fonte: Valor Econômico — Ludmylla Rocha, de São Paulo. Publicado em 5 de novembro de 2026, às 5h. Colaborou Felipe Laurence.