O varejo brasileiro enfrenta uma das maiores crises de sua história recente. Pressionado por juros elevados, crédito escasso, inadimplência crescente e pela migração acelerada dos consumidores para o comércio eletrônico, o setor acumula recordes de recuperações judiciais e vê empresas tradicionais lutando para sobreviver.
Dados da Receita Federal, compilados pela plataforma FonteData, mostram que o primeiro semestre de 2026 registrou o maior número de empresas em recuperação judicial da história recente do país. Até abril, mais de 7.600 empresas estavam em recuperação judicial, em um ritmo anualizado de 2.112 novos processos, acima do recorde registrado em 2025.
O perfil das empresas também mudou. As pequenas companhias são hoje as que mais recorrem ao mecanismo. Desde 2023, empresas com capital social inferior a R$ 50 mil apresentaram crescimento de 108% nos pedidos de recuperação judicial, enquanto entre grandes corporações o aumento foi de apenas 15%.
Levantamentos da Serasa Experian confirmam a tendência de crescimento dos processos, principalmente nos setores de serviços, comércio, indústria e agropecuária.
Especialistas apontam como principais causas o elevado custo do crédito, a restrição no financiamento bancário, a alta inadimplência, o endividamento acumulado durante os últimos anos e a desaceleração do consumo.
O cenário também é marcado por grandes reestruturações empresariais. Segundo dados apresentados no material da produção, grupos de grande porte acumulam passivos bilionários e recorrem à recuperação judicial ou extrajudicial para renegociar suas dívidas. Os casos ilustram a dimensão da crise enfrentada pelo setor produtivo brasileiro e o desafio para preservar empregos e manter as operações.
Foi justamente sobre esse cenário que a BC TV entrevistou o advogado especialista em recuperação judicial Renato Scardoa, que avalia que o varejo vive uma combinação entre dificuldades econômicas e mudanças definitivas no comportamento do consumidor.
“Estamos vivendo uma tempestade perfeita. Existe um problema conjuntural, provocado pelo crédito caro e pela inadimplência, mas também uma transformação estrutural no varejo”, afirmou.
Segundo o especialista, a pandemia acelerou um movimento que já vinha ocorrendo. Consumidores que antes frequentavam lojas físicas passaram a utilizar definitivamente o comércio eletrônico.
“As pessoas descobriram a praticidade das compras online. Hoje encontram maior variedade de produtos, preços mais competitivos e entregas extremamente rápidas. Esse hábito dificilmente será revertido.”
Na avaliação de Scardoa, o comércio eletrônico não é o responsável pela crise, mas consequência da mudança de comportamento dos consumidores.
“O e-commerce não é o vilão. O consumidor mudou. As lojas físicas precisam se reinventar e oferecer experiências diferenciadas para atrair clientes.”
Ele cita como exemplo o crescimento das chamadas lojas conceito, que deixam de funcionar apenas como pontos de venda para oferecer atendimento consultivo, demonstração de produtos e experiências personalizadas.
Além da transformação digital, a economia exerce forte influência sobre o desempenho do setor.
“O consumidor está mais endividado, compra menos e ainda enfrenta inflação elevada. Do lado das empresas, o crédito continua caro e isso dificulta manter a operação funcionando.”
O advogado também chamou atenção para um fator relativamente novo: o impacto das apostas esportivas sobre o consumo das famílias.
Segundo ele, estudos recentes do Banco Central indicam que parte significativa da renda disponível dos brasileiros tem sido direcionada às plataformas de apostas, reduzindo recursos destinados ao consumo tradicional.
Outro problema destacado durante a entrevista é a redução dos estoques nas lojas físicas.
Com dificuldades financeiras, muitas empresas diminuem o capital investido em mercadorias. O resultado é um ciclo negativo: o consumidor procura um produto na loja, não encontra e acaba realizando a compra pela internet.
Nesse ambiente de forte pressão financeira, Renato Scardoa afirma que a recuperação judicial deixou de representar apenas uma renegociação de dívidas.
“O maior benefício da recuperação judicial é permitir que a empresa reorganize seus prazos de pagamento e reduza o peso financeiro dos juros, criando condições reais para continuar operando.”
Segundo o especialista, preservar empresas significa também preservar empregos, arrecadação tributária e atividade econômica.
Apesar da importância do instrumento, Scardoa alerta para um efeito que muitas vezes recebe pouca atenção.
Grandes varejistas costumam utilizar prazos bastante longos para pagamento de fornecedores — muitas vezes superiores a 120 ou 180 dias — como forma indireta de financiar suas operações.
Quando essas empresas entram em recuperação judicial, os impactos atingem diretamente pequenos e médios fornecedores.
“Esses fornecedores dependem daquele grande cliente para sobreviver. Quando os pagamentos são suspensos ou alongados pela recuperação judicial, muitas dessas pequenas empresas acabam entrando em dificuldades financeiras.”
Segundo o advogado, o sucesso da recuperação judicial depende justamente da capacidade de preservar toda a cadeia produtiva.
“Não basta salvar o grande devedor. É preciso proteger fornecedores, empregos e todo o ecossistema econômico que gira em torno daquela empresa.”
Para o especialista, o futuro do varejo brasileiro passa pela combinação entre transformação digital, gestão financeira mais eficiente e mecanismos jurídicos capazes de permitir a recuperação de empresas viáveis sem comprometer os elos mais frágeis da cadeia produtiva.
Em um cenário marcado por recordes de recuperações judiciais e mudanças profundas no consumo, a recuperação judicial consolida-se como uma ferramenta indispensável para reorganizar empresas. O desafio agora é garantir que essa recuperação alcance não apenas os grandes grupos econômicos, mas todo o sistema produtivo que depende deles.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Adriana Blak – Doutor Renato, o varejo físico brasileiro está em colapso ou passando por uma transformação?
Renato Scardoa – Acho que é um pouco de cada, né? O colapso também tem como uma das causas a própria transformação do setor. Durante a pandemia, os hábitos de consumo foram alterados: pessoas que já tinham o costume de fazer compras online passaram a intensificar esse comportamento, enquanto outras que ainda não compravam pela internet passaram a adotar esse canal. Isso acabou impactando diretamente a dinâmica das empresas do varejo físico.
Além disso, existe todo um contexto econômico que afeta não apenas o varejo, mas os empresários brasileiros de forma geral, com fatores como o encarecimento do crédito, o aumento da inadimplência dos consumidores e outros desafios financeiros.
No entanto, a mudança de hábitos, da cultura de consumo e a própria transformação do setor têm impactado significativamente o varejo. E qualquer alteração nesse mercado tende a ser muito relevante, porque é um segmento que trabalha com grandes volumes e margens reduzidas. Pequenas mudanças podem fazer uma diferença significativa no resultado das empresas.
Adriana Blak – Doutor Renato, essa crise atual é conjuntural ou estrutural?
Renato Scardoa – Então, ela é um pouco de cada,. Porque, assim, acho que a gente está numa tempestade perfeita. Tem toda essa conjuntura, de fato, da dificuldade das empresas conseguirem o crédito para a sua operação.
Está muito caro o crédito para os empresários, né? E, na outra ponta, a inadimplência tem aumentado. Mais do que isso, a gente está vendo um outro efeito, que é consumidores também extremamente endividados e, ainda, uma doença recente, que é a doença das apostas, que tem impactado significativamente no consumo também.
Adriana Blak – Você acha que é um fato que esse vício em apostas está afetando as pessoas?
Renato Scardoa – Isso. Há um estudo recente do Banco Central que aponta como o setor de apostas tem afetado de maneira significativa os hábitos de consumo das pessoas e reduzido a capacidade de consumo dos indivíduos. Além do aumento da inflação, há uma série de fatores que têm contribuído para esse cenário: de um lado, existe uma redução da demanda, com consumidores deixando de comprar ou adquirindo produtos em menor quantidade; de outro, os custos de operação têm aumentado para os grandes varejistas.
Adriana Blak – Falando ainda um pouco sobre o e-commerce, você acha que o consumidor brasileiro abandonou de vez as lojas físicas ou acredita que, com estratégias adequadas, esse cenário ainda pode ser revertido?
Renato Scardoa – Eu acho que está acontecendo um movimento de reinvenção das lojas físicas. Elas precisam se transformar em espaços mais atrativos, com foco maior na experiência do consumidor. O esforço para atrair o cliente para uma loja física aumentou, porque as compras online já fazem parte do dia a dia das pessoas.
No e-commerce, o consumidor encontra uma variedade maior de opções, produtos disponíveis com mais facilidade e preços mais competitivos. Inclusive, há situações em que o cliente vai até uma loja física da própria rede e encontra o mesmo produto mais barato no site, deixando o vendedor sem condições de competir.
Então, eu não vejo o e-commerce como um vilão, mas como um reflexo de uma mudança de hábito do consumidor. O tempo está cada vez mais escasso, principalmente nas grandes cidades, e a evolução da logística tornou as compras online ainda mais convenientes. Hoje, muitas empresas conseguem realizar entregas no mesmo dia, dependendo do produto, com custos muito baixos e, em alguns casos, até sem cobrança de frete.
Eu acho que os consumidores mais jovens, que já estavam acostumados a fazer compras online, apenas aceleraram esse comportamento. Mas o que foi mais transformador foi o fato de que pessoas um pouco mais velhas, que não tinham esse hábito, foram forçadas pela pandemia a realizar compras pela internet.
Depois que essas pessoas passam por essa experiência e percebem a praticidade, fica mais difícil retomar o antigo hábito de ir às lojas físicas. O que temos observado é um movimento de grandes marcas criando lojas conceito, nas quais o espaço deixa de ser apenas um ponto de venda e passa a oferecer uma experiência ao consumidor, com atendimento diferenciado e vendedores atuando mais como consultores.
Então, estamos vendo uma mudança de hábito no comportamento de consumo.
Adriana Blak – Para quem não conhece o conceito de uma loja conceito, você poderia explicar um pouco melhor o que ela representa?
Renato Scardoa – A loja conceito é, basicamente, uma loja modelo, criada para oferecer uma experiência diferenciada ao consumidor. Um dos exemplos mais conhecidos são as lojas da Apple, que apresentam os produtos de uma forma mais atrativa e permitem que os clientes experimentem e conheçam melhor os equipamentos com o auxílio dos vendedores.
Nesse formato, a loja deixa de ser apenas um ponto de venda e passa a oferecer um atendimento mais completo, com serviços agregados que ajudam a atrair e aproximar o consumidor.
Adriana Blak – O baixo desempenho da economia é um problema mais grave do que a digitalização?
Renato Scardoa – Eu acho que a economia acaba impactando de uma forma mais significativa, porque a impressão que temos é que os consumidores estão deixando de comprar não apenas nas lojas físicas, mas também nas lojas virtuais. O consumo não está crescendo no ritmo esperado.
Mesmo com as tentativas do governo de estimular o crédito, o impacto ainda não foi suficiente, porque muitos consumidores já estão bastante comprometidos com dívidas.
O crédito caro é, de fato, um dos principais gargalos para o setor. Isso pesa ainda mais porque, muitas vezes, os varejistas precisam trabalhar com vendas a prazo e parcelamentos, o que gera uma necessidade maior de capital. Quando precisam recorrer a empréstimos, encontram custos elevados.
Além disso, existe outro mecanismo que afeta toda a cadeia: grandes varejistas acabam alongando os prazos de pagamento para fornecedores, principalmente os de menor porte. Em alguns casos, uma rede pode exigir que um fornecedor espere 120 ou 180 dias para receber por produtos já vendidos. Na prática, isso funciona como uma forma de financiamento indireto, utilizando o caixa do fornecedor e pressionando toda a cadeia produtiva.